Falar com Deus

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08/10/2026

O NOME DE DEUS E O SEU REINO

TEMPO COMUM. VIGÉSIMA SÉTIMA SEMANA. QUINTA-FEIRA

I. Modo de santificar o nome de Deus. O primeiro pedido do Pai-Nosso .

“ QUANDO CHEGARMOS à dignidade de filhos de Deus, seremos abrasados pela ternura que habita no coração de todos os filhos verdadeiros; e, sem pensar mais nos nossos interesses pessoais, só teremos zelo pela glória do nosso Pai. Dir-lhe-emos: Santificado seja o vosso nome , testemunhando assim que a sua glória constitui todo o nosso desejo e a nossa alegria” [1] . Nesta primeira petição das sete de que se compõe o Pai-Nosso , “pedimos que Deus seja conhecido, amado, honrado e servido por todos e por nós em particular” [2] . Jesus ensina-nos a ordem que devemos seguir habitualmente nas nossas súplicas. A primeira coisa que devemos pedir é a glória de Deus. É realmente o mais urgente, também para nós, que andamos preocupados com as necessidades imediatas. “Ocupa-te de Mim – dizia Jesus a Santa Catarina de Sena –, e Eu me ocuparei de ti”. O Senhor não nos deixará sozinhos. Santificado seja o vosso nome . Na Sagrada Escritura, o nome de uma pessoa equivale à própria pessoa; é a sua identidade mais profunda. Por isso Jesus dirá no final da sua vida, como que resumindo os seus ensinamentos: Manifestei o teu nome aos homens [3] . Revelou-nos o mistério de Deus. No Pai-Nosso , formulamos o desejo amoroso de que o nome de Deus, do nosso Pai-Deus, seja conhecido e reverenciado em toda a terra; e também devemos expressar a nossa dor pelas ocasiões em que é profanado, silenciado ou proferido com leviandade: “Ao dizermos santificado seja o vosso nome , admoestamo-nos a nós mesmos para que desejemos que o nome do Senhor, que sempre é santo em si mesmo, seja também tido como santo por todos os homens, quer dizer, que nunca seja desprezado por eles” [4] . Em determinados ambientes, parece que os homens não querem mencionar o nome de Deus. Em vez do Criador, falam da “sábia natureza” ou chamam “destino” à Providência divina, etc. Por vezes, são somente modos de dizer, mas há ocasiões em que se silencia o nome de Deus intencionalmente. Nesses casos, devemos vencer possíveis respeitos humanos e, também intencionalmente, honrar o nosso Pai. Sem afetação, manter-nos-emos fiéis aos modos cristãos de falar, que manifestam externamente a fé da nossa alma. As expressões tradicionais em muitos países, tais como “graças a Deus” ou “se Deus quiser” [5] , etc., podem servir de ajuda em algumas ocasiões para termos presente o Senhor nas nossas conversas. Isto não significa que devamos ser como essas pessoas que fazem intervir o nome de Deus em qualquer coisa, de modo inconsiderado e inoportuno (“Deus o castigou…”). O segundo preceito do Decálogo proíbe-nos que tomemos o nome de Deus em vão. Se amamos a Deus, amaremos o seu santo nome e nunca o mencionaremos com falta de respeito ou de reverência, como expressão de impaciência ou de surpresa. Este amor ao nome de Deus estender-se-á também ao de Santa Maria, sua Mãe, ao dos seus amigos, os Santos, e ao de todas as pessoas e coisas que lhe estão consagradas. Honramos a Deus no nosso coração quando fazemos um ato de reparação sempre que, na nossa presença, se falta ao respeito devido ao nome de Deus ou de Jesus Cristo; ao sabermos que se cometeu um sacrilégio ou ao termos notícia de algum episódio que ofende o bom nome do Pai comum. Não devemos também esquecer-nos de atualizar pessoalmente os atos de reparação e desagravo públicos sempre que nos unimos aos louvores que se rezam na Bênção com o Santíssimo . Nessa ocasião, o sacerdote, em nome de todos, reza: Bendito seja Deus, bendito seja o seu santo nome… São jaculatórias que podemos repetir ao longo do dia, especialmente em face de situações em que temos o dever de reparar. A reverência devida ao nome de Deus levar-nos-á além disso a amar de modo especial essas orações que são essencialmente de louvor, como o Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo , que deveríamos repetir com muita freqüência, o Glória e o Sanctus da Missa, etc. “Considerai – diz Santa Teresa – que ganhais um grande tesouro e que fazeis muito mais dizendo uma só palavra do Pai-Nosso de quando em quando, do que repetindo-o muitas vezes apressadamente. Permanecei bem junto dAquele a quem pedis, e não deixará de ouvir-vos; e crede, o verdadeiro modo de louvar e santificar o seu nome é este” [6] . Talvez algumas dessas jaculatórias nos possam ajudar a manter a presença de Deus no dia de hoje: Pai, santificado seja o vosso nome…

II. O Reino de Deus .

VENHA A NÓS o vosso Reino , pedimos a seguir no Pai-Nosso . São João Crisóstomo comenta que o Senhor “nos mandou que desejássemos os bens que estão por chegar e que apressássemos o passo na nossa viagem para o Céu; mas, enquanto a viagem não termina, vivendo ainda na terra, quer que nos esforcemos por levar vida do Céu” [7] . A expressão Reino de Deus tem um triplo significado: o Reino de Deus em nós, que é a graça; o Reino de Deus na terra, que é a Igreja; e o Reino de Deus no Céu, que é a eterna bem-aventurança. Em primeiro lugar, pedimos a Deus que reine em nós mediante a graça santificante, pela qual se compraz em cada um de nós como um rei na sua corte; e que nos conserve unidos a Si por meio das virtudes da fé, da esperança e da caridade, que lhe permitem reinar respectivamente no nosso entendimento, no nosso coração e na nossa vontade [8] . Ao rezarmos diariamente pela chegada do Reino de Deus, pedimos também que o Senhor nos ajude a ser fiéis à graça. É um reinado, o de Jesus na nossa alma, que avança ou retrocede conforme correspondemos ou rejeitamos as contínuas graças e ajudas que Ele nos concede. Cumprem-se também nos nossos corações as parábolas do Reino. Antes de adquirir a plenitude definitiva na alma de cada um dos fiéis, o Reino de Deus é como um grão de trigo que, enterrado, prepara a espiga da colheita; como o fermento, que vai transformando o coração até que seja inteiramente de Deus; como o grão de mostarda, que começa como uma pequena semente na alma e, se não levantamos obstáculos, irá crescendo sem mais limites que o das nossas resistências e negações. O Reino de Deus estabelece-se agora, pela graça, no coração dos homens; está dentro de vós , disse Jesus [9] . E percebemos a sua presença na alma através dos afetos e moções do Espírito Santo. Se soubermos corresponder-lhes dócil e prontamente, o Senhor tomará posse das nossas almas e o seu Reino será uma realidade em nós. “Antes éramos servos no mundo, agora reinemos sob o domínio de Cristo” [10] .

III. A propagação do Reino dos Céus.

QUANDO REZAMOS venha a nós o vosso reino , também pedimos que a Igreja se dilate e propague por todo o mundo para a salvação dos homens. Pedimos pelo apostolado que se realiza em toda a terra, e sentimo-nos comprometidos a empregar todos os meios ao nosso alcance para a expansão do Reino de Deus. Porque “não é suficiente pedirmos com insistência o Reino de Deus se não acrescentamos à nossa petição todas aquelas coisas com que se procura e se encontra” [11] , isto é, as nossas iniciativas apostólicas, por pequenas que nos pareçam. Num mundo que em não poucos aspectos parece ter retornado ao paganismo, impõe-se a todos os cristãos “o dever luminoso de colaborar para que a mensagem divina da salvação seja conhecida e acolhida por todos os homens em toda a parte” [12] . A nossa primeira obrigação é, ordinariamente, orientar o apostolado para todos aqueles que Deus colocou ao nosso lado: a esposa ou o marido, cada um dos filhos, os amigos, os colegas. Neste apostolado com essas pessoas, do qual não podemos esquivar-nos sob nenhum pretexto, o que nos deve importar acima de tudo é que tomem a sério a vida cristã, que entrem por caminhos de vida interior, de oração, de freqüência dos Sacramentos, que adquiram uma sólida formação doutrinal-religiosa. Isto é o mais importante. Depois, temos de nos preocupar por orientar todo o universo para Cristo, cada um na medida das suas possibilidades. A dignidade da pessoa humana, os direitos da consciência, o respeito devido ao trabalho, a preocupação por uma distribuição mais eqüitativa dos bens, o sincero desejo de paz entre os povos, etc., são tarefa que incumbe a todos os cristãos e a que todos podem prestar a sua colaboração, seja grande ou pequena. Deus conta com esse muito ou pouco de cada um. Venha a nós o vosso Reino . E “Jesus Cristo recorda a todos: Et ego, si exaltatus fuero a terra, omnia traham ad meipsum (Jo 12, 32), se vós me colocardes no cume de todas as atividades da terra, cumprindo o dever de cada instante, dando testemunho de mim no que parece grande e no que parece pequeno, omnia traham ad meipsum , tudo atrairei a mim. O meu reino entre vós será uma realidade […]. “Foi para isso que nós, os cristãos, fomos chamados, essa é a nossa tarefa apostólica e a preocupação que deve consumir a nossa alma: conseguir que o reino de Cristo se torne realidade, que não haja mais ódios nem crueldades, que estendamos pela terra o bálsamo forte e pacífico do amor. Peçamos hoje ao nosso Rei que nos faça colaborar humilde e fervorosamente com o propósito divino de unir o que se quebrou, de salvar o que está perdido, de ordenar o que o homem desordenou, de levar a seu termo o que se extraviou, de reconstruir a concórdia entre todas as coisas criadas” [13] . Comecemos, como sempre, pelo que está ao nosso alcance na convivência normal de todos os dias.

Referências citadas

  • 1. Cassiano, Colações , 9, 18
  • 2. Catecismo maior , n. 290
  • 3. Jo 17, 6
  • 4. Santo Agostinho, Carta 130, a Proba
  • 5. Ti 4, 15
  • 6. Santa Teresa, Caminho de perfeição , 31, 13
  • 7. São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus , 19, 5
  • 8. cfr. Catecismo maior , ns. 294-295
  • 9. Lc 17, 21
  • 10. São Cipriano, Tratado sobre a oração do Senhor , 13
  • 11. Catecismo Romano , IV, 10, n. 2
  • 12. Concílio Vaticano II, Decreto Apostolicam actuositatem , 3
  • 13. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, É Cristo que passa , n. 183.