12/10/2026
NOSSA SENHORA DA CONCEIÇÃO APARECIDA
Padroeira Principal do Brasil
12 DE OUTUBRO
I. Os santuários da Virgem, sinais de Deus.
CONTAM AS CRÔNICAS que em 1717 três pescadores, chamados João, Filipe e Domingos, trabalhavam com as suas redes no rio, sem obter nenhum resultado. O governador de Minas Gerais e de São Paulo ia passar por aquelas terras e os pescadores haviam recebido ordem de levar tudo o que lhes caísse nas redes para o banquete que se ia oferecer àquela autoridade. As horas passavam e a rede ia e vinha nas águas do rio sem apanhar um só peixe. Ao chegarem ao porto de Itaguaçu, cansados e derrotados, João lançou novamente as redes e, para sua surpresa, recolheu o corpo sem cabeça de uma pequena imagem de Nossa Senhora. Tornou a lançá-la e dessa feita surgiu a cabeça, que se ajustava perfeitamente ao corpo. Guardaram piedosamente a imagem recém-aparecida entre os seus pertences e, confiando em Nossa Senhora, lançaram outra vez as redes à água. Conta o cronista que, a partir desse momento, a pesca foi tão abundante que tiveram receio de naufragar pelo muito peixe que havia nas canoas . Começou então a veneração a essa imagem, guardada na casa de Filipe. Posta num oratório, “ajuntava-se a vizinhança a cantar o terço e mais devoções”. Era o início de um fervor popular que cresceria mais e mais com o passar do tempo, até dar origem ao Santuário Nacional de Aparecida. Incontáveis peregrinos dirigem-se diariamente aos santuários dedicados a Nossa Senhora, para encontrarem ali os caminhos de Deus ou neles se reafirmarem, para acharem a paz de suas almas e consolo em suas aflições. Nesses lugares de oração, a Virgem torna mais fácil e acessível o encontro com o seu Filho. Todo o santuário converte-se em “uma antena permanente da Boa-Nova da Salvação” [1] . Hoje celebramos a festa de Nossa Senhora Aparecida, a que tantos cristãos recorreram e recorrem para buscar auxílio, a fim de seguirem adiante no caminho da vida, que nem sempre é fácil. Quantos encontraram ali a paz da alma, a chamada de Deus a uma maior entrega, a cura, o consolo no meio de uma tribulação…! “O que buscavam os antigos romeiros? O que buscam os peregrinos de hoje? Aquilo mesmo que buscavam no dia, mais ou menos remoto, do seu Batismo: a fé e os meios para alimentá-la. Buscam os sacramentos da Igreja, sobretudo a reconciliação com Deus e o alimento eucarístico. E voltam revigorados e agradecidos à Senhora, Mãe de Deus e nossa” [2] . Não podemos esquecer que peregrinamos em direção a uma meta bem concreta: o Céu. O fim de uma viagem determina em boa parte o modo de viajar, os objetos que se levam, os alimentos para o caminho… A Virgem Maria diz-nos a cada um de nós que não devemos levar excessivos apetrechos nesta peregrinação da vida, nem vestes demasiado pesadas, pois dificultariam a caminhada, e que devemos caminhar para a casa do Pai em grandes passadas. Recorda-nos que não existem metas definitivas aqui na terra e que tudo deve estar orientado para o fim desse caminho, do qual talvez já tenhamos percorrido uma boa parte.
II. Nossa Senhora, esperança em qualquer necessidade.
A VIRTUDE DO PEREGRINO é a esperança; sem ela, deixaria de caminhar ou o faria com passo cansado. A Virgem é a nossa esperança, pois alenta-nos a continuar adiante, ajuda-nos a superar os momentos de desalento, acompanha-nos maternalmente nas circunstâncias mais difíceis. Sempre que recorremos a Ela – ainda que seja com a brevidade de uma jaculatória, ou com um olhar a uma imagem –, saímos reconfortados. A primeira Leitura da Missa [3] fala-nos da rainha Ester que se aproxima suplicante do grande rei, e este põe à sua disposição todo o seu poder. Que petição é a tua, para que te seja concedida? E que queres que se faça? Ainda que peças metade do meu reino, tu a terás . E a rainha dirige-lhe o seu apelo: Ó rei, se eu achei graça aos teus olhos, e se assim te apraz, concede-me a minha vida, pela qual te rogo, e a do meu povo, pelo qual intercedo . É-nos muito fácil perceber nesta rainha do Antigo Testamento a prefiguração da Rainha dos Céus, intercedendo junto de Deus por nós, que somos seu povo e seus filhos. Confiamos à intercessão de Maria as nossas necessidades, quer sejam pequenas, quer nos pareçam muito grandes, as da nossa família, da Igreja e da sociedade. Diante de Deus, Maria se referirá a nós dizendo que este é o meu povo, pelo qual intercedo . Nossa Senhora foi motivo de alegria, de paz e de esperança para todos enquanto esteve presente aqui na terra. No Sábado Santo, quando, com a morte de Jesus, a escuridão mais completa desceu sobre o mundo, só ficou acesa a esperança de Maria. Por isso, os Apóstolos reuniram-se sob o seu amparo. Agora, no Céu, “por sua maternal caridade, cuida dos irmãos do seu Filho, que ainda peregrinam rodeados de perigos e dificuldades, até que sejam conduzidos à pátria feliz” [4] . São Bernardo explica com beleza que a Virgem é o aqueduto que, recebendo a graça da fonte que brota do coração do Pai, no-la distribui. Este fluxo de água celestial desce sobre os homens “não todo de uma vez, mas gota a gota […] sobre os nossos corações ressequidos” [5] , segundo a nossa necessidade e as nossas disposições para recebê-la. A Virgem reconforta-nos sempre e está presente quando necessitamos de proteção, pois esta vida é como uma longa navegação em que padecemos ventos e tormentas. Ela é o porto seguro, onde nenhuma nave naufraga [6] . Não deixemos cair na rotina essas pequenas devoções com que nos dirigimos a Ela cada dia: o Angelus , o Santo Rosário, as três Ave-Marias para pedir pela santa pureza de todos, a devoção do escapulário… E quando fizermos alguma romaria, ou formos buscar a sua intercessão em algum santuário ou ermida dedicada a Ela, acolhamo-nos especialmente à sua misericórdia e amor.
III. Esperança e filiação divina.
COMO A PEREGRINAÇÃO da vida prossegue, pois não temos aqui morada permanente [7] , é uma medida de prudência solicitarmos da nossa Mãe do Céu umas “provisões de energia de que possamos valer-nos nas etapas posteriores” [8] que ainda nos falta percorrer. Um dos maiores inimigos do caminhante, o que tira mais forças, é o desalento, a falta de esperança em chegar à meta. Não cai no desânimo quem passa por dificuldades, mas quem deixa de aspirar à santidade e quem, depois de um erro, de uma queda, não se levanta depressa e continua a caminhar. Quem pôs a sua esperança em Cristo vive dela, e traz já em si mesmo algo do gozo celestial que o espera, pois a esperança é fonte de alegria e permite suportar com paciência as dificuldades [9] ; reza confiantemente e com consciência em todas as situações da vida; suporta pacientemente a tentação, as tribulações e a dor; trabalha com esforço pelo Reino de Deus, num apostolado eficaz, principalmente com aqueles com quem se relaciona mais de perto… A esperança leva ao abandono em Deus, à filiação divina, pois o cristão sabe que Ele conhece e conta com as situações por que devemos passar: idade, doença, problemas familiares ou profissionais… Sabe também que em cada situação teremos as ajudas necessárias para ir adiante. E é a Virgem quem distribui essas ajudas e graças, quem as multiplica… Ela estende-nos a mão depois de uma queda, de um momento de vacilação; facilita a contrição pelas nossas faltas e põe no nosso coração os sentimentos do filho pródigo. Conta Santa Teresa que, ao morrer a sua mãe, quando tinha uns doze anos, caiu na conta do que realmente havia perdido, e “fui aflita – escreve a Santa – a uma imagem de Nossa Senhora e supliquei-lhe com muitas lágrimas que me servisse de mãe. Penso que esta prece, ainda que feita com simplicidade, me tem valido; pois conhecidamente tenho achado esta Virgem Soberana em tudo aquilo em que me encomendo a Ela, e finalmente me converteu a si” [10] . Com esta simplicidade e confiança devemos recorrer a Nossa Senhora em cada uma das suas festas e invocações. Recorremos hoje a Nossa Senhora Aparecida, pedindo-lhe que nos ensine o caminho da esperança. “Não cesseis, ó Virgem Aparecida, pela vossa mesma presença, de manifestar nesta terra que o Amor é mais forte que a morte, mais poderoso que o pecado! Não cesseis de mostrar-nos Deus, que amou tanto o mundo, a ponto de entregar o seu Filho Unigênito, para que nenhum de nós pereça, mas tenha a vida eterna! Amém!” [11]
Referências citadas
- 1. João Paulo II, Aos reitores dos santuários , 22-I-1981
- 2. idem, Homilia na Basílica nacional de Aparecida , 4-VII-1980
- 3. Est 5, 1b-2; 7, 2b-3
- 4. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium , 62
- 5. São Bernardo, Homilia na natividade da Bem-aventurada Virgem Maria , 3-5
- 6. cfr. São João Damasceno, Homilia na dormição da Bem-aventurada Virgem Maria
- 7. Hebr 13, 14
- 8. João Paulo II, Discurso no Santuário de Nossa Senhora de Montserrat , 17-XI-1982
- 9. cfr. Col 1, 11-24
- 10. Santa Teresa, Vida , 1, 7
- 11. João Paulo II, Dedicação da Basílica nacional de Aparecida , 4-VII-1980.