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14/10/2026

A TENTAÇÃO E O MAL

TEMPO COMUM. VIGÉSIMA OITAVA SEMANA. QUARTA-FEIRA

I. Jesus Cristo quis ser tentado; nós também sofreremos tentações e provas. Através da tentação mostramos o nosso amor a Deus e a fidelidade aos compromissos que temos com Ele.

NÃO NOS DEIXEIS cair em tentação, mas livrai-nos do mal , rogamos aos Senhor na última petição do Pai-Nosso . Depois de termos pedido a Deus o perdão dos nossos pecados, suplicamos-lhe que nos dê as graças necessárias para não voltarmos a ofendê-lo e que não permita que sejamos vencidos nas provas que nos venham a atingir, pois “no mundo, a própria vida é uma prova […]. Peçamos, pois, que não nos abandone ao nosso arbítrio, mas nos guie em todo o momento com piedade paterna e nos confirme no caminho da vida com moderação celestial. Mas livrai-nos do mal . De que mal? Do demônio, de quem procede todo o mal” [1] . O demônio não cessa de rondar as criaturas para semear a inquietação, a ineficácia, a separação de Deus. “Há épocas em que a existência do mal entre os homens se torna singularmente evidente no mundo. Percebe-se então com mais clareza como os poderes das trevas, que atuam no homem e por meio dele, são maiores do que o próprio homem. Cercam-no, assaltam-no de fora. “Tem-se a impressão de que o homem atual não quer ver esse problema. Faz tudo o que pode para eliminar da consciência geral a existência desses dominadores deste mundo tenebroso , desses astutos ataques do diabo de que fala a Epístola aos Efésios. Contudo, há épocas históricas em que essa verdade da Revelação e da fé cristã, que tanto custa aceitar, se expressa com grande força e se deixa ver de forma quase palpável” [2] . Jesus, nosso Modelo, quis ser tentado para nos ensinar a vencer todas as provas e a crescer em confiança no meio delas. Não temos nele um pontífice que não possa compadecer-se das nossas fraquezas, antes foi tentado em tudo à nossa semelhança, fora o pecado [3] . Seremos tentados de uma forma ou de outra ao longo da vida, talvez tanto mais quanto maiores forem os nossos desejos de seguir o Senhor de perto. A graça que recebemos no Batismo e aumentou pela nossa correspondência ver-se-á ameaçada até o último momento desta vida. Devemos permanecer vigilantes, com a vigilância do soldado que está de guarda. Por outro lado, sempre devemos ter presente que nunca seremos tentados além das nossas forças [4] . Poderemos vencer em todas as circunstâncias se soubermos fugir das ocasiões e pedir os auxílios oportunos. E, “se alguém argumenta que a debilidade da natureza o impede de amar a Deus, é necessário ensinar-lhe que o Senhor, que requer o nosso afeto, derramou nos nossos corações a virtude da caridade por meio do Espírito Santo (Rom [5], 5), e que o nosso Pai celestial dá esse bom espírito aos que lho pedem (cfr. Lc [9], [13]). Por isso, Santo Agostinho suplicava com razão: Dá o que mandas e manda o que queiras . O auxílio divino está à nossa disposição […], não há motivo para assustar-se com a dificuldade da obra; porque nada é difícil a quem ama” 5 . A tentação em si mesma não é má; é até uma ocasião de mostrarmos ao Senhor que o amamos, que o preferimos a qualquer outra coisa, e é meio para crescermos nas virtudes e na graça santificante. Bem-aventurado o homem que sofre tentação, porque, depois que tiver sido provado, receberá a coroa da vida que Deus prometeu aos que o amam 6 . Mas, ainda que a prova não seja um mal, seria uma presunção desejá-la ou provocá-la de algum modo. E em sentido contrário, seria um grande erro temê-la excessivamente, como se não confiássemos nas graças que o Senhor nos preparou para vencê-la, se recorremos a Ele na nossa fraqueza. “Não te perturbes se, ao considerar as maravilhas do mundo sobrenatural, sentes a outra voz – íntima, insinuante – do «homem velho». – É «o corpo de morte» que clama por seus foros perdidos… Basta-te a graça; sê fiel e vencerás” 7 .

II. O que é a tentação. Os bens que ela pode produzir.

TENTAR NÃO É senão tatear, pôr à prova. Tentar o homem é pôr à prova a sua virtude [8] . Tentação é tudo aquilo – bom ou mau em si mesmo – que num momento determinado tende a afastar-nos do cumprimento amoroso da vontade de Deus. Podemos sofrer tentações que procedem da própria natureza, ferida pelo pecado original e inclinada ao pecado: nascemos com a desordem da concupiscência e dos sentidos. Ora, o demônio incita ao mal aproveitando-se dessa fraqueza, prometendo uma felicidade que não tem nem pode dar. Sede sóbrios e vigiai , adverte-nos São Pedro, pois o vosso adversário, o demônio, anda ao redor de vós como um leão que ruge, buscando a quem devorar [9] . Só “quem confia em Deus não teme o demônio” [10] . O demônio, por sua vez, alia-se ao mundo e às nossas paixões, que nunca deixarão de acompanhar-nos. Quando dizemos mundo , temos em vista tudo o que afasta de Deus: as pessoas que parecem viver exclusivamente para o seu amor próprio, para a sua vaidade e sensualidade; as que têm os olhos postos apenas nas coisas da terra: o dinheiro e um desejo desordenado de bem-estar material. Para essas pessoas, o necessário desprendimento das coisas da terra, a amável austeridade cristã, a castidade… são loucura e coisa própria de outros séculos. A mortificação voluntária, sem a qual não é possível dar um passo na vida cristã, é encarada como um disparate. Estão incapacitadas para entender as coisas de Deus e gostariam de inculcar nos outros os critérios pelos quais se regem: um sentido da vida em que Deus não tem lugar ou ocupa um posto muito afastado e secundário. Por meio de palavras, e sobretudo pelo seu exemplo, empenham-se em levar os outros pelo largo caminho que elas percorrem. Não raras vezes tentam desanimar os que querem ser conseqüentes com os princípios cristãos, e zombam deles, da vida e das idéias que professam. A tentação é, freqüentemente, como um fogo-de-bengala que ilumina as profundezas da alma. É na tentação e na dificuldade que podemos verificar a nossa real capacidade de espírito de sacrifício, de generosidade, de retidão de intenção…, como também a inveja oculta, a avareza mascarada sob a fachada de falsas necessidades, a sensualidade, a soberba…, a capacidade de praticar o mal que há em cada um de nós. Nesses momentos, podemos crescer no conhecimento próprio e, conseqüentemente, na humildade: vemos como somos fracos e quão perto estaríamos do pecado se o Senhor não nos ajudasse. As provas ensinam-nos a desculpar com mais facilidade os defeitos dos outros e a perceber que, ao fim e ao cabo, tudo isso que nos incomoda neles não passa de um cisco nos seus olhos, em comparação com a viga que podemos ver nos nossos. Por isso as tentações ajudam-nos a viver melhor a caridade com todos, a compreendê-los mais e a estar dispostos a rezar por eles e a prestar-lhes a cooperação e o auxílio que estiverem ao nosso alcance. Se sabemos lutar contra elas, as tentações são ainda um estímulo para crescermos nas virtudes. Rejeitar uma dúvida contra a fé desperta um ato de fé; cortar uma murmuração incipiente é crescer no respeito aos outros; afastar com prontidão um mau pensamento contra a castidade é crescer em finura no trato com o Senhor. Uma época que seja especialmente difícil pelas tentações, e que pode apresentar-se em qualquer idade e em qualquer momento da vida interior, será uma ocasião excelente para aumentarmos a devoção a Nossa Senhora – Virgem fiel –, para crescermos em humildade, para sermos mais sinceros e dóceis nas nossas conversas com quem orienta a nossa alma… Não devemos assustar-nos nem desanimar com o assédio das tentações. Nada nos pode separar de Deus se a vontade não o permite. Ninguém peca se não quer. Esses tempos difíceis, se o Senhor os vem a permitir, são tempos para purificar o coração e para adiantar muito na vida interior. A tentação pode ser uma fonte inesgotável de graças e de méritos para a vida eterna. Porque eras agradável a Deus, foi preciso que a tentação te provasse [11] . Foi com essas palavras que o Anjo consolou Tobias no meio da sua prova. Também têm sido úteis a muitos cristãos à hora das suas tribulações.

III. Meios para vencer.

PARA VENCER , temos de pedir ajuda a Nosso Senhor, que está sempre do nosso lado na hora da luta. Ele é onipotente: Tende confiança, eu venci o mundo [12] . E, junto de Cristo, podemos dizer: Tudo posso naquele que me conforta [13] . O Senhor é a minha luz e a minha salvação: a quem temerei? [14] Nas tentações, contamos com o auxílio poderoso dos Anjos da Guarda, postos junto de cada um de nós pelo nosso Pai-Deus para que nos protejam: Ele mandou aos seus anjos que te guardem em todos os teus caminhos. Sustentar-te-ão nas suas mãos para que não tropeces em pedra alguma [15] . Pedir-lhes-emos ajuda com muita freqüência, especialmente nas tentações. O Anjo da Guarda é um formidável amigo, pronto a ajudar-nos nos momentos de maior perigo e necessidade. Estamos vigilantes contra as tentações quando perseveramos na oração pessoal, que evita a tibieza, quando não abandonamos a mortificação, que nos mantém disponíveis para as coisas de Deus. Somos fortes na tentação quando fugimos das ocasiões de pecado, por pequenas que possam parecer, pois sabemos que quem ama o perigo perecerá nele [16] , quando temos o dia cheio de trabalho intenso, evitando o ócio e a preguiça. Além disso, devemos ter em conta que é mais fácil resistir no princípio, quando a tentação começa a insinuar-se, do que se permitimos que vá ganhando corpo, “porque nos será mais fácil vencer o inimigo quando não o deixamos entrar na alma, enfrentando-o logo que bater à porta. Por isso costuma-se dizer: «Resiste no princípio; o remédio chega tarde quando a chaga é velha»” [17] . Se bem que, mesmo quando “a chaga é velha”, se pode, com humildade, encontrar o remédio oportuno. Se recorrermos à Virgem, Nossa Senhora, sempre sairemos vencedores, mesmo das provas em que possamos sentir-nos absolutamente perdidos.

Referências citadas

  • 1. São Pedro Crisólogo, Sermão 67
  • 2. João Paulo II, Homilia , 3.05.87
  • 3. Hebr 4, 15
  • 4. cfr. 1 Cor 10, 13
  • 5. Catecismo Romano , III, 1, n. 7
  • 6. Ti 1, 12
  • 7. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Caminho , n. 707
  • 8. cfr. São Tomás de Aquino, Sobre o Pai-Nosso
  • 9. 1 Pe 5, 8
  • 10. Tertuliano, Tratado sobre a oração , 8
  • 11. Tob 12, 13
  • 12. Jo 16, 23
  • 13. Fil 4, 13
  • 14. Sl 26, 1
  • 15. Sl 90, 11
  • 16. Eclo 3, 27
  • 17. Tomás de Kempis, Imitação de Cristo , I, 13, 5.