16/08/2026
O VALOR DA ORAÇÃO
TEMPO COMUM. VIGÉSIMO DOMINGO. CICLO A
I. Como pedir. O Senhor atende com especial solicitude a oração dos filhos.
NO EVANGELHO DA MISSA [1] , São Mateus diz‑nos que Jesus se retirou com os seus discípulos para a região de Tiro e Sidon. Passou das margens do lago de Tiberíades para as do Mediterrâneo. Aproximou‑se então uma mulher de origem pagã, descendente dos antigos habitantes da Palestina – do país de Canaã –, em cuja região os israelistas se tinham estabelecido. E dizia‑lhe em grandes brados: Senhor, Filho de Davi, tem piedade de mim! Minha filha é cruelmente atormentada pelo demônio . O Evangelista relata que Jesus, apesar dos gritos da mulher, não lhe respondeu nada . Este primeiro encontro deu‑se, conforme indica São Marcos, numa casa , e ali a mulher lançou‑se aos seus pés [2] . O Senhor, aparentemente, não lhe fez o menor caso. Depois, rodeado dos seus acompanhantes, deve ter saído de casa, pois São Mateus escreve que os discípulos se aproximaram do Senhor e lhe disseram: Despede‑a, porque vem gritando atrás de nós . A mulher persevera no seu clamor, mas Jesus limita‑se a dizer‑lhe: Eu não fui enviado senão às ovelhas que pereceram da casa de Israel . Esta mãe, no entanto, não se deu por vencida: Aproximou e lançou‑se aos seus pés dizendo: Senhor, ajuda‑me! Quanta fé! Quanta humildade! Que enorme empenho no seu pedido! Jesus explica‑lhe por meio de uma imagem que o Reino tinha de ser anunciado em primeiro lugar aos filhos, aos que compunham o Povo eleito. Não é bom tomar o pão dos filhos – diz‑lhe – e lançá‑lo aos cães . Mas a mulher, com uma profunda humildade, com uma fé sem limites, com uma constância a toda a prova, não recua: Assim é, Senhor – responde –, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus donos . Introduz‑se na parábola, conquista o coração de Cristo, provoca um dos maiores elogios do Senhor e alcança o milagre que pedia: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja‑te feito como queres. E desde aquela hora ficou sã a sua filha . Foi o prêmio à sua perseverança. As boas mães que aparecem no Evangelho sempre se nos mostram solícitas para com os seus filhos. Sabem dirigir‑se ao Senhor pedindo‑lhe ajuda e dons. Uma vez, será a mãe de Tiago e João, que se aproxima de Jesus para pedir‑lhe que reserve no seu Reino um bom lugar para os seus filhos. Outra, será a viúva de Naím, que chora pelo seu filho morto e consegue de Cristo, talvez com um olhar, que volte à vida… A mulher que o Evangelho de hoje nos apresenta é um modelo perfeito de constância, em que devem meditar aqueles que logo se cansam de pedir. Santo Agostinho conta‑nos nas suas Confissões como a sua mãe, Santa Mônica, santamente preocupada com a conversão do seu filho, não cessava de chorar e de rogar a Deus por ele; e também não deixava de pedir a pessoas boas e sábias que falassem com ele para que abandonasse os seus erros. Um dia, um bom bispo disse‑lhe estas palavras que tanto a consolaram: “Vai em paz, mulher!, pois é impossível que se perca o filho de tantas lágrimas” [3] . Mais tarde, o próprio Santo Agostinho dirá: “Se eu não pereci no erro, foi devido às lágrimas cotidianas cheias de fé de minha mãe” [4] . Deus ouve de modo especial as orações dos que sabem amar, ainda que algumas vezes pareça que fica em silêncio. Ele espera que a nossa fé se torne mais firme, maior a nossa esperança, mais confiante o nosso amor. Quer de todos um desejo mais fervente – como o das boas mães – e uma humildade mais consciente do seu nada.
II. Qualidades da oração: perseverança, fé e humildade. Procurar a ajuda de outros para que unam as suas orações às nossas.
A ORAÇÃO DE PETIÇÃO ocupa um lugar muito importante na vida dos homens. Ainda que o Senhor nos conceda muitos dons e benefícios sem os termos pedido, decidiu conceder‑nos outras graças mediante a nossa oração ou a oração daqueles que se encontram mais perto dEle. São Tomás ensina [5] que a nossa petição não tem por fim mudar a vontade divina, mas obter o que o Senhor já tinha determinado conceder‑nos se lho pedíssemos. Por isso é necessário pedir incansavelmente, pois não sabemos qual é a medida da oração que Deus espera que preenchamos para nos conceder o que nos quer conceder. Temos que pedir também a outras pessoas que rezem pelas intenções santamente ambiciosas que trazemos no nosso coração. O próprio São Tomás explica que uma das causas pelas quais Jesus não respondeu imediatamente à cananéia foi porque Ele queria que os discípulos intercedessem por ela, para nos mostrar como é necessária a intercessão dos santos para alcançarmos algumas coisas [6] . O milagre extraordinário que a mãe da endemoninhada pedia ao Senhor necessitou também de uma oração persistente acompanhada de muita fé e de muita humildade. Perseverar é a primeira condição de toda a petição: É preciso orar sempre e não desfalecer [7] , ensinou o próprio Jesus. “Persevera na oração. – Persevera, ainda que o teu esforço pareça estéril. – A oração é sempre fecunda” [8] . A petição daquela mulher foi eficaz desde o primeiro momento. Jesus só esperou que o seu coração estivesse bem preparado para receber o grande dom que pedia. Temos de pedir com fé . A própria fé “faz brotar a oração, e a oração, logo que brota, alcança a firmeza da fé” [9] ; ambas estão intimamente unidas. A cananéia tinha uma grande fé: “Ela crê na divindade de Cristo quando o chama Senhor; e na sua humanidade quando lhe diz: Filho de Davi! Não pede nada apoiada nos seus méritos; mas invoca a misericórdia do Senhor, dizendo: Tem piedade. E não diz: Tem piedade da minha filha, mas de mim, porque a dor da filha é dor da mãe; e para movê‑lo ainda mais à compaixão, conta‑lhe a sua dor; por isso continua: Minha filha é cruelmente atormentada pelo demônio . Nestas palavras, mostra ao Médico as suas feridas e a magnitude e espécie da sua doença; a magnitude, quando lhe diz: cruelmente atormentada ; a espécie, pelas palavras: pelo demônio ” [10] . A constância na oração nasce de uma vida de fé, da confiança em Jesus, que nos ouve mesmo quando parece que se cala. E, por fim, da humildade, que é mais uma qualidade da boa oração. A oração deve brotar de um coração humilde e arrependido dos seus pecados: Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies [11] ; o Senhor, que nunca despreza um coração contrito e arrependido, resiste aos soberbos e dá a sua graça aos humildes [12] , a quem se sabe servus pauper et humilis [13] , pobre e humilde.
III. Pedir em primeiro lugar pelas necessidades da alma e depois pelas materiais, na medida em que nos aproximem de Deus.
O SENHOR DESEJA que peçamos muitas coisas. Em primeiro lugar, o que se refere à alma, “pois são grandes as doenças que a afligem, e são elas que o Senhor quer curar acima de tudo. Se cura as do corpo, é porque quer desterrar as da alma” [14] . Costuma acontecer que, “mal somos atingidos por uma doença corporal, não deixamos de tentar nada, até nos vermos livres da moléstia; estando, no entanto, a nossa alma doente, às vezes, tudo são vacilações e atrasos […]: fazemos do necessário acessório, e do acessório necessário. Deixamos aberta a fonte dos males e desejamos secar os arroios” [15] . Podemos pedir para a alma a graça para lutar contra os defeitos, maior retidão de intenção no que fazemos, fidelidade à nossa vocação, luz para receber com mais fruto a Sagrada Comunhão, uma caridade mais delicada, docilidade na direção espiritual, mais ímpeto apostólico… O Senhor quer também que lhe peçamos por outras necessidades: ajuda para superarmos um fracasso, saúde, emprego e tantas coisas mais… Mas tudo na medida em que nos sirva para amar mais a Deus. Não queremos nada que, talvez com o passar do tempo, nos afastaria do que verdadeiramente nos deve importar: estar sempre junto de Cristo. “Diz‑Lhe: – Senhor, nada quero fora do que Tu quiseres. Não me dês nem mesmo aquilo que te venho pedindo nestes dias, se me afasta um milímetro da tua Vontade” [16] . A Jesus, agrada‑lhe especialmente que peçamos pelas outras pessoas. “A necessidade obriga‑nos a rogar por nós mesmos, e a caridade fraterna a pedir pelos outros; mas é mais aceitável a Deus a oração recomendada pela caridade do que aquela que é motivada pela necessidade” [17] , ensina São João Crisóstomo. Temos que rezar, em primeiro lugar, pelas pessoas a quem estamos unidos por um vínculo mais forte, e por aquelas que o Senhor colocou sob os nossos cuidados. Os pais têm especial obrigação de pedir pelos seus filhos, sobretudo se estes estiverem afastados da fé ou se o Senhor tiver manifestado uma especial predileção por eles, chamando‑os a um caminho de entrega. E para que Deus nos ouça com mais rapidez, acompanhemos a nossa petição com obras: oferecendo horas de trabalho ou de estudo por essa intenção, aceitando por Deus a dor e as contrariedades, praticando a caridade e a misericórdia em todas as oportunidades. Os cristãos de todos os tempos sentiram‑se movidos a apresentar as suas petições a Deus por meio de santos intercessores, do Anjo da Guarda, e muito especialmente da nossa Mãe, Santa Maria. São Bernardo diz que “a nossa Advogada subiu ao Céu para que, como Mãe do Juiz e Mãe de Misericórdia, tratasse dos negócios da nossa salvação” [18] . Não deixemos de pedir diariamente a sua ajuda. Ela é “ Auxilium christianorum ”.
Referências citadas
- 1. Mt 15, 21‑28
- 2. Mc 7, 24‑25
- 3. Santo Agostinho, As Confissões , 3, 12, 21
- 4. idem, Tratado sobre o dom da perseverança , 20, 53
- 5. São Tomás, Suma Teológica , II‑II, q. 83, a. 2
- 6. idem, Catena Aurea , vol. II, pág. 338
- 7. Lc 18, 1
- 8. Josemaría Escrivá, Caminho , n. 101
- 9. Santo Agostinho, Sermão 115
- 10. São Tomás, Catena Aurea , vol. II, pág. 336‑337
- 11. Sl 50, 19
- 12. cfr. Pe 5, 5; Ti 4, 6
- 13. cfr. Liturgia das Horas, Hino do Ofício das leituras na Solenidade do “Corpus et Sanguis Christi”
- 14. São João Crisóstomo, Homilias sobre São Mateus , 14, 3
- 15. ib,
- 16. Josemaría Escrivá, Forja , n. 512
- 17. idem, em Catena Aurea , vol. I, pág. 354
- 18. São Bernardo, Sermão da Assunção da B. Virgem Maria , 1, 1.