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21/08/2026

SÃO PIO X

Papa

21 DE AGOSTO

I. A necessidade de dar doutrina. Empregar todos os meios ao nosso alcance.

O SENHOR FIRMOU COM ELE uma aliança de paz e designou-o como chefe do seu povo e sacerdote para sempre [1] . Os anos do Pontificado de São Pio X foram particularmente atribulados devido às transformações internas de muitas nações, que tiveram sérias repercussões na vida dos fiéis cristãos. Contudo, o verdadeiro vendaval que assolou a Igreja no seu tempo foi de caráter ideológico e doutrinal: as tentativas de conciliar a fé com uma filosofia que estava muito longe dela nos seus princípios, desembocaram em numerosos erros muito difundidos. Essas ideologias atacavam os próprios fundamentos da doutrina católica e conduziam diretamente à sua negação [2] . Na sua profunda preocupação por deter o curso desses males que de mil formas atingiam o povo fiel [3] , São Pio X tornou realidade o lema do seu Pontificado: instaurar todas as coisas em Cristo [4] . Insistiu com freqüência no mal que a ignorância causa à fé: “É inútil esperar – costumava dizer – que quem não tem formação possa cumprir os seus deveres de cristão”. Exortava constantemente a ensinar o Catecismo. Dessa sua solicitude pela formação dos cristãos surgiu o chamado Catecismo de São Pio X , que tanto bem fez à Igreja. Todo o seu Magistério refletiu a sua ânsia de dar doutrina a um mundo que estava faminto e necessitado dela. E ele próprio, já sendo Papa, não quis abandonar os meios tradicionais de catequese. Até 1911, costumava ensinar o Catecismo no Cortile de São Dâmaso e em outros locais do Vaticano. Todos os domingos convidava os fiéis de uma paróquia romana a assistir à Missa que lhes celebrava e em que lhes explicava o Evangelho. Uma boa parte dos erros que São Pio X combateu parecem ter adquirido foros de cidadania nos nossos dias. E em países evangelizados há quase vinte séculos, são muitos os que desconhecem as verdades mais elementares da fé e se encontram indefesos, deixando-se arrastar por esses erros, com a cumplicidade das suas próprias paixões [5] . Os apelos que São Pio X fez no seu tempo, alertando para a necessidade de conservar e difundir a boa doutrina, continuam a ser plenamente atuais. É especialmente urgente que todos os cristãos, por todos os meios ao seu alcance, dêem a conhecer os ensinamentos da Igreja sobre o sentido da vida, o fim do homem e o seu destino eterno, o matrimônio, a generosidade no número de filhos, o direito e dever dos pais de escolherem a formação que os seus filhos devem receber, a doutrina social da Igreja, o amor ao Papa e aos seus ensinamentos… Lembremo-nos de que é preciso pôr remédio à mentalidade laicista que nos envolve, à livre opinião em matéria moral que, virando as costas aos preceitos divinos, acaba por minar as próprias bases da convivência social e por destruir a dignidade humana. É grande a sementeira de bem que temos de espalhar à nossa volta. E assim nós mesmos nos robusteceremos. Como recordou o Papa João Paulo II, “a fé se fortalece dando-a!” [6]

II. Serenidade e bom humor nas dificuldades.

SÃO PIO X DISTINGUIU-SE pela grande firmeza com que enfrentou um ambiente freqüentemente adverso; ao mesmo tempo, era muito humilde e simples. A primeira Leitura da Missa [7] traz-nos umas palavras de São Paulo aos tessalonicenses que bem podiam ter sido escritas pelo Santo Pontífice: Tendo sofrido e tolerado afrontas, tivemos confiança no nosso Deus para vos pregar o Evangelho de Deus no meio de uma forte oposição . No entanto, São Pio X – como São Paulo – manteve-se sereno e alegre no meio das dificuldades, porque a sua vida estava fortemente enraizada na oração. Também não lhe faltou bom humor. Um soldado da guarda suíça lembra-se de que certa vez lhe coube montar guarda à noite num pátio debaixo da janela do quarto de dormir do Papa. Com a alabarda ao ombro, o soldado caminhava de um lado para o outro. Seus passos ressoavam nas lousas. A certa altura da noite, abriu-se a janela e apareceu a figura do Papa: “Bom homem, que faz aí?” O soldado explicou a sua tarefa como pôde. E São Pio X, benevolente, recomendou-lhe: “Vá descansar, que será melhor. Assim poderemos dormir você e eu” [8] . São Pio X teve fama de fazer milagres em vida. Certo dia, os seus antigos paroquianos foram visitá-lo. E com a simplicidade e confiança que sempre tinham tido com ele – e também com total falta de tato –, perguntaram-lhe: “Dom Beppo (assim o chamavam quando era pároco), é verdade que o senhor faz milagres?” E o Papa, com simplicidade e bom humor, respondeu-lhes: “Vejam…, aqui no Vaticano, é preciso fazer um pouco de tudo” [9] . Mas um bispo brasileiro, tendo ouvido falar da fama de santidade do Pontífice, viajou a Roma nos primeiros meses de 1914 para implorar do Santo a cura de sua mãe, que tinha sido atacada de lepra. Ante a sua insistência, o Papa exortou-o a pedir a cura a Nossa Senhora e a algum outro santo. Mas o bispo insistiu: “Ao menos, digne-se repetir as palavras de Nosso Senhor ao leproso: Volo, mundare! (quero, fica limpo). E o Papa, com um sorriso condescendente, repetiu: Volo, mundare! Quando o bispo regressou à sua pátria, encontrou a sua mãe curada da lepra” [10] . Entre as graves responsabilidades e a dureza de tantos acontecimentos que São Pio X teve de enfrentar, o Senhor concedeu-lhe a graça de não perder a simplicidade e o bom humor. São duas virtudes humanas que nós que tomamos a sério a nossa fé, vivida no meio do mundo, podemos pedir hoje ao Senhor por intercessão desse Santo Pontífice. Ajudar-nos-ão a sentir-nos filhos de Deus, a estar serenos e alegres perante qualquer dificuldade.

III. Amor à Igreja e ao Papa.

SÃO PIO X AMOU e serviu a Igreja com suma fidelidade. Desde o começo do seu Pontificado, empreendeu uma série de profundas reformas. De modo particular, dedicou especial atenção aos sacerdotes, de quem esperava tudo . Da santidade deles – disse muitas vezes e de diversas maneiras – dependia em grande medida a santidade do povo cristão. No cinqüentenário da sua ordenação sacerdotal, dedicou aos sacerdotes uma exortação [11] que tinha por subtítulo: Sobre como devem ser os sacerdotes de que a Igreja precisa . Pedia, sobretudo, sacerdotes santos, inteiramente dedicados ao seu trabalho de almas. Muitos dos problemas, necessidades e circunstâncias dos onze anos de pontificado de Pio X continuam a ser atuais. Por isso, hoje pode ser uma boa ocasião para examinarmos como é o nosso amor com obras à Igreja; se, no meio dos nossos afazeres temporais, cada um de nós tem “uma viva consciência de ser um membro da Igreja, a quem foi confiada uma tarefa original, insubstituível e intransmissível, que deve levar a cabo para o bem de todos” [12] : dar boa doutrina, aproveitando as ocasiões ou criando-as; ajudar os outros a encontrarem o caminho da sua reconciliação com Deus por meio da confissão sacramental; pedir diariamente e oferecer horas de trabalho bem acabado pela santidade dos sacerdotes; contribuir generosamente para a sustentação da Igreja e das obras de caridade; servir de eco ao Magistério do Papa, principalmente em assuntos relativos à justiça social, à moralidade pública, ao ensino, à família… “Que alegria poder dizer com todas as forças da minha alma: – Amo a minha Mãe, a santa Igreja” [13] . Um amor que se traduz todos os dias em obras concretas. Examinemos também como é o nosso amor filial ao Papa, que para todos os cristãos deve ser “uma formosa paixão, porque nele vemos Cristo” [14] . Meditemos hoje se rezamos todos os dias pela pessoa do Sumo Pontífice, para que o Senhor o guarde e o vivifique e o faça feliz na terra… Ó Deus – pedimos com a coleta da Missa de hoje –, que para defender a fé católica e instaurar todas as coisas em Cristo, cumulastes o Papa São Pio X de sabedoria divina e coragem apostólica, concedei-nos que, dóceis às suas instruções e exemplos, alcancemos o prêmio eterno.

Referências citadas

  • 1. cfr. Eclo 45, 30; Antífona de entrada da Missa do dia 21 de agosto
  • 2. cfr. R. Garcia de Haro, História teológica do modernismo , EUNSA, Pamplona, 1972
  • 3. São Pio X, Decr. Lamentabili , 3-VII-1907; Enc. Pascendi , 8-IX-1907
  • 4. São Pio X, Carta Apost. Bene nostis , 14-II-1905
  • 5. cfr. João Paulo II, Exort. Apost. Christifideles laici , 30-XII-1988, 34
  • 6. idem, Enc. Redemptoris missio , 7-XII-1990, 2
  • 7. 1 Tess 2, 2-8
  • 8. cfr. J. M. Javierre, Pio X , 5ª ed., Juan Flors, Barcelona, 1961, pág. 180
  • 9. cfr. L. Ferrari, Pio X: Dalle mie memorie , Vicenza, 1922, pág. 1528
  • 10. G. Dal-Gal, Pio X, el Papa Santo , Palabra, Madrid, 1988, pág. 304
  • 11. São Pio X, Enc. Haerent animo , 4-VIII-1908
  • 12. João Paulo II, Enc. Christifideles Laici , cit., 28
  • 13. Josemaría Escrivá, Caminho , n. 518
  • 14. Josemaría Escrivá, Amar a Igreja , Prumo-Rei dos Livros, Lisboa, 1990, pág. 36.