22/08/2026
NOSSA SENHORA RAINHA
Memória
22 DE AGOSTO
I. Santa Maria, Rainha do céu e da terra.
“A MÃE DE CRISTO, efetivamente, foi glorificada como Rainha do Universo . Ela, que na Anunciação se definiu como escrava do Senhor , permaneceu fiel ao que este nome exprime durante toda a sua vida terrena, confirmando desse modo que era uma verdadeira discípula de Cristo, o que sublinhava fortemente o caráter de serviço da sua missão: o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a vida em resgate de muitos (Mt 20, 28). Por isso, Maria tornou-se a primeira entre aqueles que «servindo a Cristo também nos outros, conduzem os seus irmãos, com humildade e paciência, àquele Rei a quem servir é reinar» ( Lumen gentium , 36), e alcançou plenamente aquele estado de liberdade real que é próprio dos discípulos de Cristo: servir quer dizer reinar! […] A glória de servir não cessa de ser a exaltação real de Maria; assunta aos céus, Ela não suspende aquele seu serviço salvífico…” [1] O dogma da Assunção, que pudemos celebrar na semana passada, leva-nos de modo natural à festa de hoje: a realeza de Maria. Nossa Senhora subiu ao Céu em corpo e alma para ser coroada pela Santíssima Trindade como Rainha e Senhora da Criação: “Terminado o curso da sua vida terrena, foi assunta em corpo e alma à glória celeste. E, para que se assemelhasse mais plenamente ao seu Filho, Senhor dos senhores (cfr. Apoc 19, [16]) e vencedor do pecado e da morte, foi exaltada pelo Senhor como Rainha do Universo” 2 . Esta verdade foi afirmada desde tempos antiquíssimos pela piedade dos fiéis e ensinada pelo Magistério da Igreja 3 . Santo Efrém coloca nos lábios de Maria estas belíssimas palavras: “O Céu sustente-me com os seus braços, porque sou mais honrada do que ele mesmo. Pois o Céu foi apenas o teu trono, não a tua mãe. Quantas vezes é mais digna de honra a Mãe do Rei do que o seu trono!” 4 Foi muito freqüente exprimir este título de Maria mediante o costume de coroar as suas imagens de forma canônica, por concessão expressa dos Papas 5 . Desde os primeiros séculos, a arte cristã representou Maria como Rainha e Imperatriz, sentada em trono real, ornada com as insígnias da realeza e rodeada de anjos. Não poucas vezes retratam-na no momento em que é coroada pelo seu Filho. E os fiéis recorreram a Ela com orações como a Salve-Regina, Ave Regina Caelorum, Rainha do céu, alegrai-vos… , tantas vezes repetidas. Também não são poucas as vezes em que temos recorrido a Ela recordando-lhe esse formoso título da sua realeza no marco do quinto mistério glorioso do Santo Rosário. Hoje, na nossa oração, fazemo-lo de modo especial. “És toda formosa, e não há mancha em ti. – És horto cerrado, minha irmã, Esposa, horto cerrado, fonte selada. – Veni, coronaberis . – Vem, serás coroada (Cânt 4, 7.12 e 8). “Se tu e eu tivéssemos tido poder, tê-la-íamos feito também Rainha e Senhora de toda a criação. “Um grande sinal apareceu no céu: uma mulher com uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça. – O Pai, o Filho e o Espírito Santo coroam-na como Imperatriz que é do Universo. “E rendem-lhe preito de vassalagem os Anjos…, e os patriarcas e os profetas e os Apóstolos…, e os mártires e os confessores e as virgens e todos os santos…, e todos os pecadores, e tu e eu” 6 .
II. Realeza de Nossa Senhora.
EIS QUE CONCEBERÁS e darás à luz um filho, a quem porás o nome de Jesus. Ele será grande e será chamado Filho do Altíssimo, e o Senhor Deus lhe dará o trono de seu pai Davi; e reinará eternamente na casa de Jacó; e o seu reino não terá fim [7] , lemos no texto do Evangelho da Missa de hoje. A realeza de Maria está intimamente relacionada com a do seu Filho. Jesus Cristo é Rei porque lhe compete um poder pleno e completo, tanto na ordem natural como na sobrenatural; é uma realeza própria e absoluta, além de ser plena. A realeza de Maria é plena e participada da do seu Filho. Os termos Rainha e Senhora aplicados à Virgem não são uma metáfora; com eles, designamos uma verdadeira superioridade e uma autêntica dignidade e poder nos céus e na terra. Por ser Mãe do Rei, Maria é verdadeira e propriamente Rainha, encontra-se no cume da criação e é efetivamente a primeira pessoa humana do Universo. “Belíssima e perfeitíssima, tem tal plenitude de inocência e santidade que não pode conceber-se outra maior depois de Deus” [8] . Os títulos da realeza de Maria são a sua união com Cristo como Mãe e a associação com o seu Filho Rei na redenção do mundo. Pelo primeiro título, Maria é Rainha-Mãe de um Rei que é Deus, o que a enaltece sobre todas as criaturas humanas; pelo segundo, Maria Rainha é dispensadora dos tesouros e bens do Reino de Deus, em virtude da sua corredenção. Na instituição desta festa, Pio XII convidava os fiéis a aproximar-se deste “trono de graça e de misericórdia da nossa Rainha e Mãe para pedir-lhe socorro na adversidade, luz nas trevas, alívio nas dores e penas”; e animava todos os cristãos a pedirem graças ao Espírito Santo e a esforçarem-se por detestar o pecado e livrar-se da sua escravidão, “para poderem render um preito de vassalagem constante, perfumado com a devoção de filhos”, a quem é Rainha e tão grande Mãe [9] . Adeamus ergo cum fiducia ad thronum gratiae, ut misericordiam consequamur … “Aproximemo-nos, pois, confiadamente do trono da graça, a fim de alcançarmos misericórdia e encontrarmos graça para sermos socorridos no momento oportuno” [10] . Este trono, símbolo da autoridade, é o de Cristo, mas Ele quis que fosse na sua Mãe, trono de graça , que mais facilmente alcançássemos a misericórdia, pois Ela nos foi dada “como advogada da graça e Rainha do Universo” [11] . Contemplamos hoje uma grande festa no céu. A Santíssima Trindade sai ao encontro da nossa Mãe, assunta aos céus por toda a eternidade. “É justo que o Pai, o Filho e o Espírito Santo coroem a Virgem Santíssima como Rainha e Senhora de toda a criação. – Aproveita-te desse poder e, com atrevimento filial, une-te a essa festa do Céu. – Eu corôo a Mãe de Deus e minha Mãe com as minhas misérias purificadas, porque não tenho pedras preciosas nem virtudes. – Anima-te!” [12] A Virgem espera-nos; quer que nos unamos à alegria dos Santos e dos Anjos. E temos o direito de participar de uma festa tão grande, pois trata-se da nossa Mãe.
III. O reinado de Maria exerce-se no Céu, na terra e no purgatório.
APARECEU NO CÉU um grande sinal: uma mulher vestida de sol, com a lua debaixo dos pés e uma coroa de doze estrelas sobre a cabeça [13] . Essa mulher, além de representar a Igreja, simboliza Maria [14] , a Mãe de Jesus, que no Calvário foi entregue a João para ser cuidada por ele. O discípulo cumpriu com esmero esse encargo e pôde contemplá-la muitas vezes. Quando, já velho, passava para o papel as suas visões, Maria já exercia a sua realeza no Céu. Os três traços com que o Apocalipse descreve Nossa Senhora são símbolo dessa dignidade: vestida de sol , quer dizer, resplandecente de graça por ser a Mãe de Deus; com a lua debaixo dos pés , como soberana que é de todas as coisas criadas; e uma coroa de doze estrelas , expressão da sua coroa real, do seu reinado sobre todos os anjos e santos [15] . Na ladainha do terço, recordamos todos os dias que Ela é Rainha dos Anjos, dos Patriarcas, dos Profetas, dos Apóstolos, dos Mártires, de todos os santos… É também a nossa Rainha e Senhora. O reinado de Maria exerce-se diariamente em toda a terra, pois é Ela que distribui a mãos cheias a graça e a misericórdia do Senhor. Em correspondência, devemos colocar-nos muitas vezes na sua presença, reconhecendo-a como Rainha. Muitos cristãos, aos sábados e quando visitam os seus inumeráveis santuários, cantam-lhe ou rezam-lhe com devoção essa antiga oração que é a Salve-Rainha: Salve, Rainha, Mãe de misericórdia, vida, doçura, esperança nossa… Esse reinado é exercido no Céu sobre os Anjos e sobre todos os bem-aventurados, que aumentam a sua glória acidental “pelas luzes que Maria lhes comunica, pelas alegrias que experimentam na sua presença, por tudo quanto Ela faz pela salvação das almas” [16] . O reinado de Maria exerce-se também no Purgatório. “ Salve, Rainha , cantavam as almas que vi sentadas sobre a relva e entre as flores que não se viam de fora do vale”, declara o poeta italiano [17] . A nossa Mãe anima-nos constantemente a pedir e a oferecer sufrágios pelos que ainda se purificam no Purgatório; apresenta a Deus as nossas orações por eles, aumentando assim o seu valor. Aplica a essas almas, em nome do seu Filho, os frutos dos méritos que Ele nos alcançou e os dos seus próprios méritos. A nossa Mãe é uma boa aliada no nosso esforço por ajudar as almas do Purgatório, e, se procurarmos a sua intimidade, estimular-nos-á também a purificar as nossas faltas e pecados já nesta vida, permitindo assim que possamos contemplá-la imediatamente depois da morte, sem termos que passar por esse lugar de espera e de purificação. Ó Deus, que fizestes a Mãe do vosso Filho nossa Mãe e Rainha, concedei-nos, por sua intercessão, que alcancemos o reino do céu e a glória prometida aos vossos filhos [18] .
Referências citadas
- 1. João Paulo II, Enc. Redemptoris Mater , 25-III-1987, n. 41
- 2. Conc. Vat. II, Const. Lumen gentium , 59
- 3. cfr. Pio XII, Enc. Ad coeli Reginam , 11-X-1954
- 4. Santo Efrém, Hino sobre a Bem-aventurada Virgem Maria
- 5. J. Ibañez-F. Mendoza, La Madre del Redentor , Palabra, Madrid, 1988, pág. 293
- 6. Josemaría Escrivá, Santo Rosário , Quinto mistério glorioso
- 7. Lc 1, 31-33
- 8. Pio IX, Bula Ineffabilis Deus , 8-XII-1854
- 9. Pio XII, op. cit.
- 10. Hebr 4, 16
- 11. Missal Romano, Prefácio da Missa da festa
- 12. Josemaría Escrivá, Forja , n. 285
- 13. Apoc 12, 1
- 14. São Pio X, Enc. Ad diem illum , 2-II-1904
- 15. cfr. L. Castán, Las Bienaventuranzas de Maria , BAC, Madrid, 1971, pág. 320
- 16. R. Garrigou-Lagrange, La madre del Salvador , Rialp, Madrid, 1976, pág. 323
- 17. Dante Alighieri, A divina comédia , Purgatório , 7, 82-84
- 18. Missal Romano, Oração coleta da Missa .