24/08/2026
SÃO BARTOLOMEU APÓSTOLO
Festa
24 DE AGOSTO
I. O encontro com Jesus.
A TRADIÇÃO IDENTIFICA o Apóstolo Bartolomeu com Natanael, aquele a quem o seu amigo Filipe comunicou cheio de alegria ter encontrado o Messias: Encontramos aquele de quem escreveram Moisés na lei e os profetas: Jesus de Nazaré, filho de José [1] . Natanael, como todo o bom israelita, sabia que o Messias devia vir de Belém, do povo de Davi [2] . Assim fora anunciado pelo profeta Miquéias: E tu, Belém Efrata, tu és a menor entre as principais cidades de Judá; mas de ti há de sair aquele que reinará em Israel 3 . Talvez tenha sido por isso que o futuro Apóstolo respondeu num certo tom depreciativo: De Nazaré pode porventura sair coisa que seja boa? E Filipe, sem confiar muito nas suas próprias explicações, convidou-o a conhecer pessoalmente o Mestre: Vem e vê . Filipe sabia muito bem, como nós, que Cristo não decepciona ninguém. Foi o próprio Jesus que “chamou Natanael por meio de Filipe, como chamou Pedro por meio do seu irmão André. Essa é a maneira de agir da Providência, que nos chama e nos conduz por meio de outros. Deus não quer trabalhar sozinho; a sua sabedoria e a sua bondade querem que também nós participemos da criação e ordenação das coisas” [4] . Quantas vezes nós mesmos não seremos instrumentos para que os nossos amigos ou familiares recebam a chamada do Senhor! Quantas vezes, como Filipe, não diremos: Vem e vê . Natanael, homem sincero, acompanhou Filipe até Jesus… e ficou deslumbrado. O Mestre conquistou a sua fidelidade para sempre. Ao vê-lo chegar acompanhado do amigo, disse-lhe: Eis um verdadeiro israelita, em quem não há dolo . Que grande elogio! Natanael ficou surpreendido e perguntou: Donde me conheces? E o Senhor respondeu-lhe com umas palavras que são misteriosas para nós, mas que devem ter sido muito claras e luminosas para ele: Antes que Filipe te chamasse, eu te vi, quando estavas debaixo da figueira . Ao ouvir Jesus, Natanael entendeu claramente. As palavras do Senhor recordaram-lhe algum acontecimento íntimo, talvez a resolução de um propósito firme, e impeliram-no a fazer uma emocionada confissão explícita de fé em Jesus como Messias e Filho de Deus: Mestre, tu és o Filho de Deus, tu és o Rei de Israel . E o Senhor prometeu-lhe: Porque eu te disse que te vi debaixo da figueira, crês? Verás coisas maiores que estas . E evocou com certa solenidade um texto do profeta Daniel 5 para confirmar e dar maior peso às palavras que o novo discípulo acabara de pronunciar: Em verdade, em verdade vos digo que vereis o céu aberto e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem .
II. O elogio do Senhor. A virtude da sinceridade.
NO ELOGIO DE JESUS a Natanael, descobre-se a atração que uma pessoa sincera exerce sobre o coração de Cristo. O Mestre diz do novo discípulo que nele não há dolo nem engano : é um homem sem falsidades. Não tem como que “dois corações e duas pregas no coração, uma para a verdade e outra para a mentira” [6] . Isso é o que deve poder dizer-se de cada um de nós, por sermos homens e mulheres íntegros, que procuramos viver com coerência a fé que professamos. O mentiroso, aquele que tem um espírito duplo, aquele que atua com pouca clareza, soa sempre a sino rachado: “Lias naquele dicionário os sinônimos de insincero: «ambíguo, ladino, dissimulado, matreiro, astuto»… – Fechaste o livro, enquanto pedias ao Senhor que nunca pudessem aplicar-se a ti esses qualificativos, e te propuseste aprimorar ainda mais esta virtude sobrenatural e humana da sinceridade” [7] . Trata-se de uma virtude fundamental para seguir o Senhor, pois Ele é a verdade divina [8] e aborrece toda a mentira. Até os inimigos de Cristo terão de reconhecer o seu amor pela verdade: Mestre – dir-lhe-ão numa ocasião –, sabemos que és sincero e que ensinas o caminho de Deus segundo a verdade, sem te prenderes a ninguém, porque não fazes acepção de pessoas [9] . E ensina-nos que as manifestações das nossas idéias ou pensamentos devem ser feitas conforme a verdade: Seja o vosso falar: Sim, sim; não, não; porque tudo o que passa disto procede do mal [10] . O demônio, pelo contrário, é o pai da mentira [11] , pois tenta constantemente levar os homens ao maior de todos os enganos, que é o pecado. O próprio Jesus, que sempre se mostra compreensivo e misericordioso com todas as fraquezas humanas, lança duríssimas condenações contra a hipocrisia dos fariseus. Por isso podemos imaginar a alegria que lhe causou o encontro com Natanael. A verdade abre-nos a porta para a autêntica liberdade, conforme nos diz o Evangelho [12] . “Jesus Cristo vai ao encontro do homem de todas as épocas – incluída a nossa – com as mesmas palavras que pronunciou certa vez: Conhecereis a verdade, e a verdade vos fará livres . Estas palavras encerram uma verdade fundamental e ao mesmo tempo uma advertência: a exigência de uma relação honesta com a verdade, como condição de uma autêntica liberdade” [13] . É a liberdade interior que nos permite agir sempre com a desenvoltura e a alegria próprias dos filhos de Deus. Não tenhamos nunca medo à verdade, ainda que por vezes pareça que essa atitude nos acarreta um mal que poderíamos evitar com uma mentira. Da verdade só pode nascer o bem. Nunca vale a pena mentir: nem para obtermos um grande benefício econômico, nem para nos livrarmos de um castigo ou sairmos de uma situação difícil.
III. Sinceridade com Deus, na direção espiritual, no convívio com os outros. A virtude da simplicidade.
TEMOS DE SER verazes e sinceros na vida corrente, nas nossas relações com os outros: sem essa virtude, a convivência torna-se difícil ou mesmo impossível [14] . “Fora da verdade, a existência do homem acaba por obscurecer-se e, quase insensivelmente, deixa-se invadir pelas trevas do erro, que podem chegar a falsear toda a vida” [15] . De modo particular, devemos ser verazes e sinceros no trato com Deus, dirigindo-nos a Ele “sem anonimato”, sem querer ocultar-nos, com a alegria e a confiança com que um bom filho se comporta diante do melhor dos pais. Temos também de aprender a dar a conhecer a intimidade da nossa alma àqueles que, em nome do Senhor, nos ajudam a orientar os nossos passos para o Céu. Na Confissão, a sinceridade é tão importante que, se o penitente não reconhece a sua culpa, não pode receber a graça: não é, pois, apenas uma atitude perante uma pessoa, o confessor, mas perante o próprio Deus. A atitude contrária – o silêncio, a dissimulação, a mentira – seria tão estéril em relação aos frutos que desejamos obter, como a daquele que, no dizer de Santo Agostinho, “indo ao médico para ser curado, perdesse o juízo e a consciência e mostrasse os membros sadios, ocultando os enfermos. Deus é quem deve vendar as feridas, não tu; porque se, por vergonha, queres ocultá-las com bandagens, o médico não te curará. Deves deixar que seja o médico quem te cure e pense as feridas, porque ele as cobre com medicamentos. Enquanto com as bandagens do médico as chagas se curam, com as bandagens do doente ocultam-se. E a quem pretendes ocultá-las? Àquele que conhece todas as coisas” [16] . Se formos sinceros, os nossos próprios pecados serão motivo para que nos unamos mais intimamente a Deus. Há outra virtude estreitamente relacionada com a sinceridade, e que hoje podemos admirar em São Bartolomeu: a simplicidade, que é conseqüência necessária de um coração que busca a Deus. Opõem-se a esta virtude a afetação no falar e no agir, o desejo de chamar a atenção, o pedantismo, os ares de suficiência, a jactância…, defeitos que dificultam a união com Cristo e que criam barreiras, às vezes intransponíveis, ao esforço por ajudar os outros a aproximar-se de Jesus. A alma simples não se enreda nem se complica inutilmente por dentro: dirige-se em linha reta para Deus, através de todos os acontecimentos – bons ou maus – que sucedem à sua volta. A par da sinceridade, a naturalidade e a simplicidade constituem outras “duas maravilhosas virtudes humanas, que tornam o homem capaz de receber a mensagem de Cristo. Em contrapartida, tudo o que é emaranhado, complicado, as voltas e mais voltas em torno de nós mesmos, tudo isso constrói um muro que com freqüência impede de ouvir a voz do Senhor” [17] . Peçamos hoje a São Bartolomeu que nos alcance do Senhor essas virtudes, que tanto lhe agradam e que são tão necessárias para a oração, para a convivência e para o apostolado. Peçamos a Nossa Senhora que andemos pela vida sem duplicidade, com um coração sincero e simples: “«Tota pulchra es Maria, et macula originalis non est in te!» – És toda formosa, Maria, e não há em ti mancha original!, canta alvoroçada a liturgia: não há nEla a menor sombra de duplicidade. Peço diariamente à nossa Mãe que saibamos abrir a alma na direção espiritual, para que a luz da graça ilumine toda a nossa conduta! “– Se assim lhe suplicarmos, Maria nos obterá a valentia da sinceridade, para que nos cheguemos mais à Trindade Santíssima” [18] . São Bartolomeu será hoje o nosso principal intercessor diante de Nossa Senhora.
Referências citadas
- 1. Jo 1, 45
- 2. cfr. São João Crisóstomo, Homilias sobre o Evangelho de São João , 20, 1: (3) Miq 5, 2
- 4. O. Hophan, Los Apóstoles , pág. 176: (5) Dan 7, 13
- 6. Santo Agostinho, Comentários ao Evangelho de São João , 78, 7, 16
- 7. Josemaría Escrivá, Sulco , n. 337
- 8. cfr. Jo 14, 6
- 9. Mt 22, 16
- 10. Mt 5, 37
- 11. cfr. Jo 8, 44
- 12. cfr. Conferência Episcopal Espanhola, Inst. Past. A verdade vos libertará , 20-XI-1990, n. 38
- 13. João Paulo II, Enc. Redemptor hominis , 4-III-1979, 12
- 14. cfr. São Tomás, Sobre os sacramentos
- 15. Conferência Episcopal Espanhola, op. cit. , n. 37
- 16. Santo Agostinho, Comentário ao Salmo 31
- 17. Josemaría Escrivá, Amigos de Deus , n. 90
- 18. Josemaría Escrivá, Sulco , n. 339.