29/10/2026
O AMOR DE JESUS
TEMPO COMUM. TRIGÉSIMA SEMANA. QUINTA-FEIRA
I. O nosso refúgio e proteção estão no amor a Deus. Acudir ao Sacrário.
NO CAMINHO para Jerusalém, que São Lucas descreve com tanto detalhe, Jesus deixou escapar do fundo do coração esta queixa em relação à Cidade Santa: Jerusalém, Jerusalém […], quantas vezes quis juntar os teus filhos, como a galinha recolhe os seus pintinhos debaixo das asas… [1] É assim que o Senhor continua a proteger-nos: como a galinha reúne os seus pintinhos indefesos. Do Sacrário, Jesus vela pelo nosso caminhar e está atento aos perigos que nos rodeiam, cura as nossas feridas e nos dá constantemente a sua Vida. Conscientes desta verdade, quantas vezes não teremos repetido a estrofe do hino eucarístico: Bom pelicano, Senhor Jesus! Limpai-me a mim, imundo, com o vosso Sangue, do qual uma só gota pode salvar do pecado o mundo inteiro [2] . NEle está a nossa salvação e o nosso refúgio. Os pintinhos que buscam refúgio debaixo das asas da mãe são uma imagem do justo que procura proteção no Senhor, como podemos ler com freqüência na Sagrada Escritura: Guarda-me como à menina dos teus olhos, esconde-me sob a sombra das tuas asas [3] , porque Tu és o meu refúgio, uma torre fortificada contra o inimigo. Oxalá possa eu habitar sempre no teu tabernáculo e acolher-me sob o amparo das tuas asas [4] , lemos nos Salmos. O profeta Isaías recorre à mesma imagem para assegurar ao Povo eleito que Deus o defenderá contra o cerco do inimigo. Assim como os pássaros estendem as suas asas sobre os seus filhos, assim o Eterno todo-poderoso defenderá Jerusalém [5] . No fim da nossa vida, Jesus será o nosso Juiz e o nosso Amigo. E enquanto durar a nossa peregrinação, dar-nos-á todas as ajudas de que necessitamos, pois a sua missão é uma só, como era quando vivia aqui na terra: salvar-nos. Não podemos imaginá-lo distante das dificuldades que nos rodeiam, indiferente ao que nos preocupa! “Se sofremos penas e desgostos, Ele nos alivia e consola. Se caímos doentes, será o nosso remédio ou então dar-nos-á forças para sofrer, a fim de merecermos ir para o Céu. Se o demônio ou as paixões nos atacam, dar-nos-á armas para lutar, para resistir e para alcançar vitória. Se somos pobres, enriquecer-nos-á com toda a sorte de bens no tempo e na eternidade” [6] . Não deixemos de acompanhar o Senhor presente nos nossos Sacrários. Esses poucos minutos de uma breve visita que lhe façamos serão os momentos mais bem aproveitados do nosso dia. “E o que faremos, perguntais algumas vezes, diante de Jesus Sacramentado? Amá-lo, louvá-lo, agradecer-lhe e pedir-lhe. O que faz um pobre na presença de um rico? O que faz o doente diante do médico? O que faz o sedento diante de uma fonte cristalina?” [7]
II. Jesus Sacramentado prestará todas as ajudas necessárias.
A CONFIANÇA de que venceremos todas as provas, perigos e padecimentos não se baseia nas nossas forças, sempre escassas, mas na proteção de Deus, que nos amou desde toda a eternidade e não hesitou em entregar o seu Filho à morte para nossa salvação. O próprio Jesus quis permanecer junto de nós, no Sacrário mais próximo, para nos ajudar, para curar as nossas feridas e dar-nos novos ânimos nesse caminho que há de desembocar no Céu. Basta que nos aproximemos dEle, pois está sempre à nossa espera. Nada do que nos venha a acontecer poderá separar-nos de Deus, como nos ensina São Paulo numa das Leituras da Missa [8] , pois se Deus é por nós, quem será contra nós? Aquele que não poupou nem o seu próprio Filho, mas por nós todos o entregou à morte, como não nos dará também com ele todas as coisas?… Quem nos separará, pois, do amor de Cristo? A tribulação?, a angústia?, a fome?, a nudez?, o perigo?, a perseguição?, a espada? Nada nos poderá separar dEle, se nós não nos afastarmos. “Revestidos da graça, passaremos através das montanhas (cfr. Sl 103, [10]) e subiremos a encosta do cumprimento do dever cristão, sem nos determos. Utilizando estes recursos, com boa vontade, suplicando ao Senhor que nos outorgue uma esperança cada vez maior, possuiremos a alegria contagiosa dos que se sabem filhos de Deus: Se Deus está conosco, quem nos poderá derrotar? (Rom 8, 31)” 9 . Ainda que o Senhor permita tentações muito fortes ou as dificuldades familiares cresçam, e sobrevenha a doença ou se torne mais íngreme a encosta…, nenhuma prova por si mesma é suficientemente forte para nos separar de Jesus. Com uma visita ao Sacrário mais próximo, com uma oração bem feita, encontraremos a mão poderosa de Deus e poderemos dizer: Omnia possum in eo qui me confortat 10 , tudo posso nAquele que me conforta. Porque eu estou certo – continua São Paulo na primeira Leitura da Missa – de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as virtudes, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem a força, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Jesus Cristo Nosso Senhor . É um cântico de confiança e de otimismo que hoje podemos fazer nosso. São João Crisóstomo recorda-nos que “o próprio São Paulo teve que lutar contra numerosos inimigos. Os bárbaros atacavam-no, os seus próprios guardas armavam-lhe ciladas, até os fiéis, às vezes em grande número, se levantaram contra ele e, no entanto, Paulo triunfou de tudo. Não esqueçamos que o cristão fiel às leis do seu Deus vencerá tanto os homens como o próprio Satanás” [11] . Se nos mantivermos sempre perto de Jesus presente na Sagrada Eucaristia, venceremos todas as batalhas, ainda que às vezes pareça que fomos derrotados… O Sacrário será a nossa fortaleza, pois Jesus quis ficar para nos amparar, para nos ajudar em qualquer necessidade. Vinde a Mim…, diz-nos todos os dias.
III. Junto do Sacrário, ganharemos todas as batalhas. Almas de Eucaristia .
A SERENIDADE que devemos ter não nasce de fecharmos os olhos à realidade ou de pensarmos que não teremos tropeços e dificuldades, mas de olharmos o presente e o futuro com otimismo, porque sabemos que o Senhor quis ficar conosco para nos socorrer. Quando vivemos nessa persuasão, as próprias dificuldades da vida se convertem num bem, e mesmo nas circunstâncias mais duras não nos sentimos sós. Se nessas ocasiões se agradece tanto a presença de um amigo, como não será a paz que teremos junto do Amigo, no Sacrário mais próximo? Devemos acudir rapidamente à igreja mais próxima, para buscar consolo, paz e as forças necessárias. “Que mais queremos ter ao lado que um Amigo tão bom, que não nos abandonará nos trabalhos e tribulações, como fazem os do mundo?” [12] , escreve Santa Teresa de Jesus. Quando já se podia perceber que ia ser perseguido, São Tomás More foi intimado a comparecer perante o tribunal de Lambeth. No dia marcado, despediu-se dos seus, mas não quis que o acompanhassem ao embarcadouro, como de costume. Iam com ele somente William Roper, marido de sua filha mais velha, Margareth, e alguns criados. Ninguém no barco se atrevia a romper o silêncio. Ao cabo de uns minutos, More sussurrou inopinadamente ao ouvido de Roper: Son Roper, I thank our Lord the field is won : “Meu filho Roper, dou graças a Deus, porque a batalha está ganha”. Mais tarde Roper confessaria não ter entendido naquele momento o significado dessas palavras, mas que veio a fazê-lo depois: compreendeu que o amor de More tinha crescido tanto que lhe dava a certeza de saber que triunfaria de qualquer obstáculo [13] . Era a convicção de que, sabendo-se próximo do seu último combate, o Senhor não o abandonaria no momento supremo. Se nos mantivermos perto de Jesus, se formos almas de Eucaristia , o Senhor proteger-nos-á como as aves protegem os seus filhotes, e sempre, ante os maiores obstáculos, poderemos dizer de antemão: A batalha está ganha . “Sê alma de Eucaristia! “– Se o centro dos teus pensamentos e esperanças estiver no Sacrário, filho, que abundantes os frutos de santidade e de apostolado!” [14] Santa Maria, que tantas vezes falou com o Senhor aqui na terra e agora o contempla para sempre no Céu, colocará nos nossos lábios as palavras oportunas se alguma vez não soubermos muito bem o que dizer-lhe. Ela acode sempre prontamente em socorro da nossa inépcia.
Referências citadas
- 1. Lc 13, 34
- 2. Hino Adoro te devote
- 3. Sl 17, 8
- 4. Sl 61, 4-5
- 5. Is 31, 5
- 6. Cura d’Ars, Sermão sobre a Quinta-feira Santa
- 7. Santo Afonso Maria de Ligório, Visitas ao Santíssimo Sacramento , 1
- 8. Rom 8, 31-39; Primeira leitura da Missa da quinta-feira da trigésima semana do Tempo Comum
- 9. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Amigos de Deus , n. 219
- 10. Fil 4, 3
- 11. São João Crisóstomo, Homilias sobre a Epístola aos Romanos , 15
- 12. Santa Teresa, Vida , 22, 6-7
- 13. cfr. São Tomás More, La agonía de Cristo , Rialp, Madrid, 1988, introd., pág. 33
- 14. Bem-aventurado Josemaría Escrivá, Forja , n. 835.