15/10/2026
SANTA TERESA DE JESUS
Virgem e Doutora da Igreja
15 DE OUTUBRO
I. Necessidade da oração. A sua importância capital na vida cristã.
SANTA TERESA mostrou-nos com a sua vida como a oração permite transpor dificuldades que humanamente parecem insuperáveis, realizar certos “impossíveis” que algumas vezes o Senhor nos pede. Mais de uma vez, ao longo da sua vida, escutou estas palavras do Senhor: Que temes? E aquela mulher – já avançada em anos, doente, cansada – cobrava forças para lançar-se aos seus empreendimentos e voltava à brecha superando todos os obstáculos. Um dia, depois da Comunhão, quando o seu corpo parecia resistir a estabelecer novas fundações, ouviu Jesus dizer-lhe no seu interior: “Que temes? Quando te faltei eu? O mesmo que fui, sou-o ainda agora; não deixes de fazer essas duas fundações” (o Senhor referia-se a Palência e Burgos). A Madre Teresa exclamou: “Ó grande Deus! Como são diferentes as vossas palavras das dos homens!” “E assim – prossegue a Santa – fiquei tão resolvida e animada que o mundo inteiro não bastaria para me opor obstáculos” [1] . Anos mais tarde, escreveria acerca da fundação feita em Palência, que a princípio se tinha apresentado cheia de dificuldades: “Nesta fundação, tudo nos vai indo tão bem que não sei em que há de parar” [2] . E em outro lugar: “Cada dia se entende mais como foi acertado fazer esta fundação” [3] . E dizia a mesma coisa da outra cidade: “Também há em Burgos tantas que querem entrar, que é uma pena não haver onde” [4] . Isto cumulava-a de felicidade e alegria, apesar do muito que lhe tinha custado: “Pareceu-me que não agüentaria ir a Burgos com tantas doenças […], sendo tão frio” [5] . O Senhor nunca a deixou só. É na oração que obtemos forças para levar a cabo o que o Senhor nos pede. E isto cumpre-se tanto na vida do sacerdote, como da mãe de família, da religiosa, do estudante… Por isso, é grande o empenho do demônio em que abandonemos a nossa oração diária, ou a façamos de qualquer maneira, mal, pois “sabe o traidor que está perdida para ele a alma que persevera na oração; e que, se a fizer cair, as próprias quedas a ajudarão, pela bondade de Deus, a dar um salto muito maior no serviço do Senhor. É coisa que muito lhe interessa” [6] . As almas que estiveram perto de Deus sempre nos falaram da importância capital da oração na vida do cristão. “Não nos estranhe, pois – ensinava o Santo Cura d’Ars –, que o demônio faça tudo o que está ao seu alcance para levar-nos a abandonar a oração ou a fazê-la mal” [7] . A oração é o fundamento firme da perseverança, pois “quem não deixa de andar e progredir – ensina a Santa –, mesmo que tarde, afinal chega. Para mim, perder o caminho não é senão abandonar a oração” [8] . Por isso, temos de prepará-la com esmero: sabendo que estamos diante de Cristo vivo e glorioso, que nos vê e nos ouve como àqueles que dEle se aproximavam quando vivia na terra visivelmente. Que diferente se torna o dia em que, serenamente e com amor, procuramos cuidar desse tempo diário que dedicamos a falar com o Senhor que nos escuta atentíssimo! Que alegria podermos estar agora junto de Cristo! “Olha que conjunto de razões sem razão te apresenta o inimigo para que abandones a oração: «Falta-me tempo» – quando o estás perdendo continuamente –; «isto não é para mim», «eu tenho o coração seco»… “A oração não é um problema de falar ou de sentir, mas de amar. E ama-se quando se faz o esforço de tentar dizer alguma coisa ao Senhor, ainda que não se diga nada” [9] . Façamos o propósito de nunca a deixar, de dedicar-lhe o melhor tempo que nos for possível, no melhor lugar, diante do Sacrário, sempre que os nossos afazeres o permitam.
II. Trato com a Santíssima Humanidade de Jesus.
A NOSSA ORAÇÃO tornar-se-á mais fácil se, com o decidido empenho de não consentir em distrações voluntárias, procurarmos meditar na Santíssima Humanidade de Jesus, fonte inesgotável de amor, que facilita tanto o cumprimento da vontade divina. A própria Santa nos conta a capital importância que teve na sua vida um pequeno episódio que deixou uma marca indelével na sua alma: “Aconteceu-me que, entrando um dia no oratório – escreve –, vi uma imagem que haviam trazido para guardar ali […]. Era de Cristo muito chagado, tão devota que, só de pôr nela os olhos e vê-lo em tal estado, fiquei toda perturbada, porque representava bem ao vivo o que passou por nós. Foi tanto o que senti por ter-lhe agradecido tão mal aquelas chagas, que parecia partir-se-me o coração. Lancei-me a seus pés, derramando muitíssimas lágrimas e suplicando-lhe que me fortalecesse de uma vez para não o ofender mais” [10] . Não foi uma reação sentimental o que a fez chorar, mas o amor a Cristo, que tanto nos ama e tanto padeceu por nós como prova de amor. E é tão natural procurarmos numa imagem, num retrato, o rosto de quem se ama! Por isso a Santa acrescenta mais adiante: “Desventurados os que por sua culpa perdem tão grande graça! Bem parece que não amam o Senhor, pois, se o amassem, folgariam de ver o seu retrato, como no mundo dá contentamento contemplar o de uma pessoa a quem se quer bem” [11] . Poderá ser-nos útil também servir-nos da imaginação para representar com imagens claras o nascimento de Jesus em Belém, o lar de Nazaré onde o Senhor aprendeu a trabalhar…, as aflições do Coração de Maria na fuga para o Egito…, a sua dor no Calvário. Noutras ocasiões, aproximar-nos-emos do grupo dos discípulos que ouvem a explicação de uma parábola; acompanharemos Jesus naquelas longas caminhadas de cidade em cidade, de aldeia em aldeia…; entraremos com Ele na casa dos seus amigos de Betânia e contemplaremos o afeto com que o recebem, e aprenderemos a tratá-lo melhor no Sacrário. Não podemos formar uma figura sem contornos e longínqua de Jesus. Ele é o Amigo sempre próximo e atento, com um coração de carne que palpita como o nosso. Na oração mental, encontramo-nos com Cristo vivo, que nos espera. “Teresa rejeitava os livros que propunham a contemplação como um vago engolfar-se na divindade (cfr. Vida 22, 1) ou como um «não pensar em nada» (cfr. Castelo interior , 4, 3, 6), vendo nisso o perigo de a pessoa se debruçar sobre si mesma, de afastar-se de Jesus, do qual nos «vêm todos os bens» (cfr. Vida 22, 1). Daí o seu grito: «Afastar-se de Cristo…, não o posso sofrer» ( Vida , 22, 1). Esse grito é válido também nos nossos dias, contra algumas técnicas de oração que não se inspiram no Evangelho e que praticamente tendem a prescindir de Cristo, em favor de um vazio mental que não tem sentido dentro do cristianismo” [12] . Muitas das nossas dificuldades desaparecem quando nos pomos na presença do Senhor, cuidando muito bem da oração preparatória: Creio firmemente, Senhor, que estás aqui, que me vês, que me ouves; adoro-te com profunda reverência… E se estamos na sua presença, como aqueles que o escutavam em Nazaré ou em Betânia, já estamos fazendo oração. Olhamo-lo, e Ele nos olha…; formulamos-lhe um pedido…; tornamos nosso aquilo que talvez estejamos lendo, detendo-nos num parágrafo ou tirando um propósito para a nossa vida cotidiana: atender melhor a família, sorrir mesmo que estejamos cansados, trabalhar com mais intensidade e presença de Deus, falar com um amigo para que se confesse… Acontecerá conosco o mesmo que com Santa Teresa e com todos aqueles que têm feito verdadeira oração: “Sempre saía consolada da oração e com novas forças” [13] , confessa-nos.
III. Dificuldades na oração.
NÃO DESANIMEMOS se, apesar de tudo, a oração nos custa, se temos distrações, se parece que não obtemos muito fruto. O desalento é em muitas ocasiões a maior dificuldade para perseverarmos na oração. Santa Teresa também nos relata as suas lutas e as suas dificuldades: “Durante alguns anos, muitíssimas vezes, mais me ocupava em desejar que terminasse o tempo que fixara para ter oração e em escutar se o relógio dava as horas, do que em outras coisas boas; e fartas vezes não sei que penitência grave se me apresentaria que eu não a acometesse de melhor vontade do que recolher-me a orar mentalmente” [14] . Se procurarmos afastar as distrações e nos empenharmos em buscar mais o Deus dos consolos do que os consolos de Deus , como sublinharam tantos autores espirituais, a nossa oração terminará sempre cheia de frutos. Muitas vezes, será até um grande bem não experimentarmos nenhum consolo sensível, para assim procurarmos Jesus com maior retidão de intenção e unirmo-nos mais intimamente a Ele. Às vezes, essa aridez que se experimenta na oração não é uma prova de Deus, mas resultado de uma verdadeira falta de interesse em falar com Ele, de falta de preparação interior, da falta de generosidade em dominar a imaginação… Temos que saber retificar com generosidade e prontidão. “Em todo o caso, quem se empenha seriamente deve saber que virão tempos em que lhe parecerá vaguear por um deserto e em que, apesar de todos os seus esforços, não «sentirá» nada de Deus. Deve saber que ninguém que leve a sério a oração consegue estar totalmente livre dessas provas. Mas não deve identificar imediatamente esta experiência, comum a todos os cristãos que rezam, com a noite escura de tipo místico. De qualquer modo, nesses períodos, deve esforçar-se firmemente por persistir na oração; ainda que tenha a impressão de uma certa “artificialidade”, deve saber que se trata na verdade de algo completamente diverso: é precisamente então que a oração constitui uma expressão da sua fidelidade a Deus, em cuja presença quer permanecer apesar de não ser recompensado por nenhuma consolação subjetiva” [15] . Agora, como nos tempos conturbados de Santa Teresa, “é precisa muita oração”, pois “é grande neste momento a sua necessidade” [16] . A Igreja, a sociedade, as famílias e as nossas almas precisam dela. A oração permitir-nos-á vencer todas as nossas dificuldades e unir-nos-á a Jesus, que nos espera diariamente no trabalho, nos nossos deveres familiares…, e de maneira particular nesse tempo que dedicamos somente a Ele.
Referências citadas
- 1. Santa Teresa, Fundações , 29, 6
- 2. idem, Carta 348 , 3
- 3. idem, Carta 354 , 4
- 4. idem, Carta 145 , 8
- 5. idem, Fundações , 29, 11
- 6. idem, Vida , 19, 2
- 7. Santo Cura d’Ars, Sermão sobre a oração
- 8. Santa Teresa, Vida , 19, 5
- 9. Josemaría Escrivá, Sulco , n. 464
- 10. Santa Teresa, Vida , 9, 1
- 11. ib. , 9, 6
- 12. João Paulo II, Homilia em Ávila , 1-XI-1982
- 13. Santa Teresa, Vida , 29, 4
- 14. ib. , 8, 3
- 15. S. C. para a Doutrina de Fé, Sobre alguns aspectos da meditação cristã , 15-X-1989, n. 30
- 16. cfr. Santa Teresa, Carta 184 , 6.